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quinta-feira, 22 de abril de 2010

UM PRIMEIRO CONTATO

Virou aquela página como quem toca pela primeira vez uma taça herança de gerações do topo da cristaleira, sem querer deixar digitais. Às escondidas, um crime sorrateiro. Nunca lhe fora oferecido experimentar aquela iguaria, resguardada, em sua época, aos grandes. A curiosidade lhe era escassa, encerrada num cofre a sete chaves desde a infância talhada de luta, de trabalho pesado, de ser mãe dos irmãos, de ser dona de uma casa que não era a sua.

Tudo ali lhe parecia novo, uma série de códigos indecifráveis, talvez mensagens extraterrestres, talvez hieróglifos de uma civilização antiga. Olhou os contornos daqueles símbolos sagrados e achou-os muito bonitos assim, secretos dentro da sua sapiência, guardando significados que, para ela, foram vetados. Acostumou-se a ignorá-los pelas ruas por onde andava, estranha ofensa estampada onde quer que fosse, diminuindo-a, relembrando sua quase escrava condição.

Levemente, percorreu com os dedos aqueles contornos negros eternizados nas páginas já amareladas pelo tempo, tentando, pelo tato, entender o que diriam aos seus olhos, aquelas frases, infinitas, imortais, já que sua cegueira ali não via qualquer sentido.

Aspirou com todo o fôlego dos pulmões aquele odor acre, tentando apreender algo de ciência restante dos rastros deixados pelos dedos ali passados. Fosse outra alternativa desesperada de compreender o indecifrável, talvez.

Por um segundo, um súbito de esperança a fez imaginar – o ser humano não se perde de seus sonhos – que um dia, quem sabe, pudesse saber o que diziam aquelas letras, aquelas palavras, aquelas frases, aquelas páginas, e outras mais.

Apenas por um segundo.

Fechou o livro e recolocou-o de volta à estante. E voltou a preocupar-se com todo aquele pó que acumulava a gigantesca biblioteca, atarefada que sempre estava, sem tempo para “estas coisas de estudos”. E novamente esqueceu-se de sua condição humana e deixou de sonhar.